Na mesa cinzenta da cozinha onde estudava diariamente, mesmo em frente ao fogão, estava eu sentada no topo. Já fim da tarde, esperava ansiosamente que a minha mãe me fosse buscar.
Andava ainda na primária. Terceiro ano julgo eu.
Micéu, era como a chamávamos. Minha tia, minha professora, meu anjo.
Recordo-me da textura e odor das suas mãos, como se fosse hoje… carnudas, avermelhadas e suavemente enrugadas. Estavam quase sempre geladas de lavar a roupa no tanque de cimento. No quarto dedo da mão direita, usava um anel com as vogais escritas no dourado, acompanhado por uma pedra verde água, da cor do mar, da cor dos seus próprios olhos. Fora professora. Transmitia-me todos os dias, com o maior carinho, um pouco da sua sabedoria.
Enquanto esperava, escrevia um ditado, ditado pela mesma.
“Estava um monte de molheres à porta.”
Mando-me logo parar.
- “Olha bem para o que escreveste.”
Pois, não via nada de errado naquela frase.
- “Molheres Carolina? Molheres? Nós não somos nenhum móóóóóóóóólhe!”
Foi então que vi o interior do sorriso mais inconfundível.
Ainda hoje quando escreve a palavra “mulher” me lembro dela. Do aproximar da cara sobre mim com a boca aberta e a pronunciar o “óóóóóóóó”…
Ouvi a buzina do carro da minha mãe. Depressa fechei o caderno e lhe devolvi o minúsculo lápis emprestado. Despedi-me à pressa ainda assustada com tal.
A caminho de casa fui a reflectir: “uma mulher não é nenhum molhe!”, “uma mulher não é nenhum molhe!”, “uma mulher não é nenhum molhe!”. Não me queria enganar novamente, visto que da última vez que tivera escrito “muinto”, tive que repetir a palavra cem vezes.
Tu sim foste uma Mulher. Mulher! Não uma móóóóólher. Correctamente uma mulher.
M de Mulher, M de Micéu e M de “Muinto”
Abril 22, 2008 por carolinapinho
Sei bem quem foi essa Mulher…
Todas as palavras são pouca para descrever essa amiga que o tempo não deixou que ficesse ao nosso lado o tempo que gostaríamos…Queria-a ao seu lado o Deus em que acreditava!
…E obrigada a ti por te lembrares…por a lembrares!
Beijo